O bilionário Justin Sun, fundador da blockchain Tron, entrou com uma ação judicial contra a World Liberty Financial (WLF), venture de criptomoedas associada à família Trump, alegando que seu investimento de US$ 45 milhões foi obtido por meio de fraude e que a empresa está à beira do colapso financeiro. A queixa, com 52 páginas, foi protocolada na segunda-feira no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia.
Um investimento que virou pesadelo
Sun afirma ter adquirido legalmente tokens da WLF em 2024, num momento que descreve como decisivo para o projeto. Segundo ele, sua entrada como investidor âncora ajudou a conferir credibilidade à iniciativa, que enfrentava demanda fraca e dificuldades para se estabelecer no mercado. Os tokens, comprados por US$ 45 milhões, chegaram a ser avaliados em mais de US$ 1 bilhão.
O empresário diz ter se engajado no projeto por acreditar na proposta de promover as finanças descentralizadas e pela associação da família Trump com a iniciativa, declarando-se um apoiador de longa data do presidente Donald Trump. No entanto, sua visão sobre o empreendimento mudou radicalmente com o tempo.
A virada veio em 15 de abril, quando uma nova proposta de governança foi submetida exigindo que 10% dos tokens de todos os consultores da empresa fossem permanentemente destruídos. Sun, que ocupa justamente o cargo de consultor, recusou os termos. Como resposta, segundo ele, seus tokens foram congelados por prazo indefinido e seus direitos de voto, revogados.
Acusações graves e pedido de júri
A ação lista uma série de acusações contra os operadores da WLF, que inclui os filhos do presidente, Donald Trump Jr. e Eric Trump. Sun alega que eles trataram o projeto como uma oportunidade de lucrar com fraude usando a marca Trump, fazendo dele um alvo prioritário do esquema. Ele e suas empresas afirmam ter sofrido centenas de milhões de dólares em prejuízos.
Entre as acusações constam declarações falsas que induziram seus investimentos, representações enganosas sobre conformidade legal, congelamento indevido de ativos, ameaças e difamação. A queixa também alega que a WLF planeja destinar até 95% dos recursos arrecadados com a venda de tokens a insiders da empresa.
Sun e suas empresas pedem julgamento por júri, além do descongelamento imediato dos tokens e uma ordem judicial impedindo a WLF de queimá-los, destruí-los ou dispor deles de qualquer forma. Também pleiteiam indenização por danos e ressarcimento de custos processuais.
Apoio ao presidente, guerra contra o projeto
Em publicação no X, o fundador do Tron foi cuidadoso ao separar sua insatisfação com a WLF de qualquer crítica pessoal ao presidente. Sun afirmou que “certos indivíduos na equipe do projeto têm operado de forma contrária aos valores do presidente Trump” e que não acredita que Trump endossaria essas ações caso soubesse delas. Trump é oficialmente descrito como o “principal defensor cripto” da WLF.
O histórico de Sun com reguladores americanos adiciona uma camada de complexidade ao caso. Durante o governo Biden, sua empresa Tron foi investigada pelo Departamento de Justiça e pela FinCEN por suspeitas de uso em atividades ilícitas. A SEC também o havia acusado de manipulação de mercado. Curiosamente, após começar a investir na WLF, as investigações perderam força: a SEC encerrou suas acusações em fevereiro de 2025 e as demais apurações foram arquivadas. Sun sempre negou qualquer irregularidade.
Conflitos de interesse e o cenário brasileiro
A WLF já vinha sendo alvo de críticas recorrentes sobre potenciais conflitos de interesse e suposta vulnerabilidade à influência estrangeira desde o retorno de Trump ao poder, em 2025. O caso Sun amplia o nível de exposição do projeto num momento delicado para o mercado cripto global.
No Brasil, onde o interesse por criptoativos segue em crescimento e o mercado é regulado pela Receita Federal e pelo Banco Central, episódios como esse reforçam o debate sobre os riscos de investir em projetos associados a figuras políticas. O caso expõe como a falta de governança transparente e mecanismos de proteção ao investidor podem resultar em perdas significativas, mesmo para players com capacidade financeira expressiva. Para o investidor brasileiro comum, a lição é ainda mais relevante: a credibilidade de um nome famoso não substitui due diligence.
Opinião da StrongCode
O processo movido por Justin Sun é mais do que uma disputa entre bilionários — é um retrato dos riscos estruturais que projetos de criptomoedas com forte apelo político e pouca governança podem representar. Quando a credibilidade de um investimento depende mais do nome associado do que de fundamentos sólidos, o caminho para o conflito tende a ser curto.
Independentemente do desfecho judicial, o caso já serve de alerta para o mercado: transparência, mecanismos claros de governança e proteção contratual ao investidor não são detalhes secundários. São a base de qualquer projeto que pretenda ser levado a sério.
Redação Strong Code
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